Cuidei de 6 mulheres com câncer no plantão dessa semana.
A sétima era eu, deitada na maca.
Meu nome é Solange, tenho 47 anos e sou técnica de enfermagem há 22 anos no SUS. Descobri um câncer de mama que já avançou. E o meu próprio hospital não tem o remédio que pode me salvar.
São 22 anos servindo o SUS.
Sou técnica de enfermagem no Hospital Geral de Carapicuíba. Crio meus dois filhos sozinha desde que o pai deles foi embora, há oito anos. O João Pedro tem 15. A Sofia tem 7.
É eu, eles e a minha mãe, dona Conceição, contra o mundo.
O câncer começou pequeno, na mama esquerda.
Mas como eu não tinha tempo de fazer mamografia — porque estava cuidando das outras — o tumor cresceu, foi pro gânglio e um pedacinho já pulou pro meu pulmão.
É como se o câncer tivesse plantado uma sementinha de fogo dentro de mim. E cada dia sem o remédio certo, essa sementinha vira incêndio.
Eu sei o nome do remédio de cor: Trastuzumabe.
O meu oncologista olhou no meu olho e disse, com a voz que eu já ouvi ele usar pra dar notícia ruim pra outras mil mulheres:
"Solange, você tem 90 dias pra começar essa medicação alvo. Senão, daqui pra metástase difusa é questão de meses."
O SUS dá o Trastuzumabe, mas em centro de referência, com fila de oito meses pro meu protocolo. Eu tenho 90 dias.
Eu segurei tudo o que eu pude.
Coloquei a minha casa no banco — a casa que paguei dez anos pra começar a ter. Vendi o Gol 99 que era a minha vida pra chegar nos plantões. Os colegas fizeram vaquinha. Até a minha mãe abriu a poupança da vida dela.
Mas ainda faltam cinquenta e quatro mil reais. E eu não tenho mais o que vender.
Devolva à Solange um pouco do que ela deu
O tratamento completo custa R$ 87 mil. Com R$ 30, você paga um mililitro do Trastuzumabe — o remédio que impede o câncer de pular pelo meu corpo. Um mililitro a mais de vida.
Quanto você quer ajudar?
Passei 22 anos cuidando da vida de gente que eu nem conhecia. Aplicando soro, segurando a mão de quem tinha medo.
Hoje eu sou só mais um número numa fila que eu mesma já fiz mil vezes pra outros. E descobri uma verdade dolorida: até quem cura precisa ser curado.
Devolva pra Solange um pouquinho do que ela deu pro SUS durante 22 anos.